A lógica do consumo e da produção, vai em algumas regiões, despersonalizando as cidades como um espaço de vida de uma população e as transformando em espaços de produção e consumo de bens.

Numa região onde as casas se espalhavam, tinham quintais e jardins e onde áreas naturais prevaleciam, vai aos poucos se transformando em local de barracões onde se instalam indústrias e espaços comerciais.


Percebe-se no rosto e nas conversas com as pessoas, uma certa ambiguidade, onde ao mesmo tempo em que se sentem felizes pelo desenvolvimento e empregabilidade que a cidade passa a oferecer, sentem-se apreensivas e tristes, porque o lugar onde vivem tornou-se barulhento, movimentado demais, com carros e pessoas circulando em grande quantidade  o dia todo e até altas horas da noite e finais de semana.

As administrações públicas, pressionadas pelos empresários e na ânsia de arrecadar cada vez mais impostos que essas empresas possam trazer para o município, sucumbem a essa lógica da produção e do consumo, que é muito mais forte do que a discussão e o planejamento de se construir uma cidade realmente para as pessoas. E assim, uma zona considerada antes privilegiada para morar, vai aos poucos sendo ocupada por restaurantes, shoppings, hipermercados, diversos tipos de lojas, bares com música ao vivo, etc.

Na maioria das vezes, a população que mora nessa região não tem dinheiro para frequentar esses lugares. Quando muito, vai de vez em quando, e a lógica da especulação, faz com que os terrenos próximos a esses empreendimentos fiquem muito caros e as pessoas que ainda tem casas com quintais e jardins, pressionadas pelas imobiliárias, que fazem ofertas tentadoras, acabam vendendo seus terrenos e assim novos empreendimentos imobiliários vão cercando as paisagens que ao longe essa população, residente no lugar, vislumbrava.

E com esse fenômeno da urbanização, as pessoas vão se retirando do lugar para outros bairros ou cidades, ou se enclausurando nos condomínios verticais.

Na Região Metropolitana de Curitiba, esse fenômeno é muito forte e perverso. Em Colombo, enormes condomínios verticais foram construídos com o objetivo de abrigar pessoas que serão provavelmente mão-de-obra para empresas instaladas próximo dessa região ou que vão utilizar o transporte público que as levará para trabalhar em empresas de outras cidades  como Pinhais, São José dos Pinhais, Araucária e Curitiba.

Várzeas de rios e áreas de mananciais em Pinhais e São José dos Pinhais, vão sendo ocupadas a olhos vistos sem que se possa parar e refletir se realmente é por ai o caminho.

As indústrias e imobiliárias que se instalam na região, pouco estão preocupadas com as pessoas, ou o meio ambiente natural, o que interessa para a maioria é o lucro que irão usufruir por se instalarem em lugar privilegiado. Os problemas recaem sobre o poder público que tem de fazer tudo para atender a população e a infraestrutura da cidade. Mas na prática do dia a dia os problemas e as demandas por infraestrutura e outros atendimentos, aparecem mais rapidamente do que as soluções e daí surge o conflito entre o poder público e população que vê sua qualidade de vida piorar à medida que o cidade cresce.

Problemas diversos, como o da mobilidade, saneamento, poluição sonora e do ar, acúmulo de lixo, assistência médica e educacional, espaços de lazer, falta de água e energia, começam a se intensificar e as pessoas não entendem que ainda há um descompasso entre o poder público e o privado.

O poder privado é livre e investe maciçamente para erguer o mais rápido possível seus empreendimentos. O poder público no Brasil, ainda é cheio de amarras e seus empreendimentos precisam passar por longos processos de elaboração, discussão, seguindo normas e licitações.

O poder público e privado precisam compartilhar mais abertamente seus interesses dentro das cidades, anunciando e debatendo com a população os empreendimentos que pretendem fazer. Pois a população deve e precisa saber de que forma e com qual intensidade sua vida será afetada com os empreendimentos que estão sendo planejados, sejam eles públicos ou privados.

Para refletirmos:

  • Como você está vendo e sentindo a sua cidade?
  • Você já parou para observar e analisar como era há cinco, dez anos atrás, a região onde você mora e como ela está hoje?
  • Que sugestões você teria para que fosse possível conciliar o progresso da cidade com a qualidade de vida das pessoas?