Carrego comigo o pensamento do grande geógrafo, Milton Santos que dizia: “ o sonho nos obriga a pensar”. Mas o que se percebe no momento atual é que há pouco sonho e em consequência pouco pensamento. Há um certo conformismo de que tudo já foi inventado, feito e que só resta usar, consumir e descartar. E isso em quase todas as áreas, sejam elas materiais ou nas relações humanas. Como há pouco sonho, há também pouco pensamento, principalmente quanto à vida diária e o seu desenrolar social, comunitário, ambiental e estrutural nas grandes aglomerações urbanas.

Vive-se numa sociedade onde as diferenças de ocupação e uso do solo são desiguais e não respeitam a dinâmica da natureza e seus elementos como os rios, a vegetação, o vento, a luz do sol e nem respeitam as pessoas que já moram, trabalham ou estudam numa determinada região.

A lógica que comanda essa ocupação e obriga as cidades  a se movimentarem, muitas vezes contra sua vontade, é a lógica do capital, da acumulação e não a lógica que leve em conta os interesses das pessoas do lugar.

A ocupação dos espaços na cidade, vai ocorrendo segundo uma lógica pensada politicamente e economicamente apenas por algumas pessoas, aquelas que detêm o poder do capital financeiro . E vai obrigando a população a se adaptar a viver nesses novos espaços criados arbitrariamente ou a ser expulsa à foça ou de forma velada, quando o ambiente antes habitável, tranquilo, vivo, transforma-se em ambiente barulhento, poluído, opaco, obrigando moradores do lugar a procurar outras regiões para viver.

É o que se vê acontecer nas cidades da Região Metropolitana de Curitiba, onde regiões antes tranquilas e onde algumas pessoas sonhavam construir e viver numa cidade bonita e feita para as pessoas, veem agora,  as regiões onde moram sendo ocupadas por barracões e indústrias poluidoras, edifícios que vão cerceando a luz do sol, a circulação dos ventos, ruas e avenidas ocupando espaços de bosques, praças e jardins.

Observa-se cada vez mais que a natureza e as pessoas valem pouco. E por isso como tudo gira em torno do consumismo, constroem-se áreas habitacionais com alguns resquícios de natureza e coloca-se à venda. Algumas pessoas na esperança de serem valorizadas saem correndo para comprá-las buscando assim o valor que não lhes é dado.

Para cidades mais humanas, planejadas para progredir e sustentar vida harmoniosa entre desenvolvimento tecnológico e natureza é necessário que as administrações municipais deixem de lado os acordos políticos e coloquem nas diferentes secretarias, pessoas que sonhem, pensem e levem para a ação, soluções para os diferentes problemas urbanos, como saúde, educação, segurança, trânsito, tendo como norte a constante análise do fenômeno urbano que está sempre em movimento e transformação. Se tal estudo, análise não acontece, os problemas só tendem a aumentar e a busca de soluções sempre será paliativa e não definitiva.

Os prefeitos e vereadores, precisam se convencer de que não são donos dos cargos que ocupam e que mais do que atender de imediato as exigências dos financiadores de suas campanhas, eles precisam estimular a maioria da população a pensar a cidade e juntos, administração municipal, empresários e população planejar de forma ordenada e que atenda a todos sem conflitos, o uso e a ocupação dos espaços na cidade.

Muitos políticos, secretários municipais, usam termos como sustentabilidade, qualidade de vida, mas na hora de colocar em prática não sabem como fazê-lo e cedem a cidade para que especuladores façam o que bem entendem, sem respeitar a natureza e a população que mora no entorno de seus empreendimentos.

As pessoas precisam despertar para sonhar e pensar a cidade, o lugar onde moram em todos os momentos, não só quando os problemas já estão instalados, porque daí a solução sempre é mais difícil e quem acaba cedendo é sempre o mais fraco, ou seja, os que não detêm o poder político e econômico.

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