Num dia desses, ao caminhar pela cidade, ao passar por uma ponte que liga as duas pistas da rodovia Leopoldo Jacomel, próximo ao Jardim Amélia, ouço uma conversa em baixo da ponte. As vozes de meninos com suas falas e risadas animadas me chamou a atenção. Resolvi dar uma espiada e encontro quatro meninos armados com seus molinetes, latinhas de minhoca e baldes, brincando no acumulado de água que se forma junto à canalização da Sanepar. Perguntei o que estavam fazendo e eles responderam que estavam pescando, mas que naquele dia os peixes eram poucos e pequenos e que sempre no final de semana e nos dias em que não tem aula eles vem pescar  debaixo da ponte porque nas cavas e no rio os pais não deixam eles ir.

Disse lhes que não acreditava que tivesse peixes ali, mas eles, como todo bom pescador, falaram que tem dias que pegam peixes um atrás do outro e que além de lambaris, já pegaram bagrinhos, mas que hoje não tinha tantos.  Enquanto se desenrolava a conversa, um lambari foi fisgado para sair na foto e provar que em plena cidade, que cresce de forma rápida, confinando os espaços naturais em  pequeninas reservas, ainda é possível alguns meninos se divertirem pescando como se morassem num sítio e guardarem em suas memórias esses momentos, levando para gerações futuras, incríveis histórias de pescadores de lambari embaixo da ponte de uma rodovia movimentada, numa cidade que cresce sem perguntar se é isso mesmo que os meninos sonham para uma cidade feliz.

Desejei-lhes boa sorte e por um instante invejei a liberdade daqueles meninos, que alheios ao corre-corre da cidade, conseguiam fazer da simplicidade de uma pescaria embaixo da ponte, um momento de lazer importante e divertido, colocando um colorido especial em suas vidas.

Parabéns aos meninos. Pena que nós adultos sejamos para tudo tão formais, onde até nosso lazer, muitas vezes, transforma-se num ritual cheio de regras e etiquetas.

Pêsames também a nós que em nome do conforto e do progresso, vamos colocando o concreto em tudo, canalizando nossas águas e impedindo que corram a céu aberto, revelando-nos que a vida é um eterno fluir feito de paciência para que as pescarias tenham sucesso. Assim como canalizamos as águas em nossas cidades, enclausuramos também nossas vidas com diversos compromissos e ficamos envergonhados ou esquecemos, de reservar um tempo para pescar amizades, abraços, beijos, afagos, amores…..

A vida sempre nos dá oportunidades como essa que eu presenciei e que nos leva à reflexão de que é possível romper o concreto, as regras estabelecidas e pescar sensibilidade.

%d blogueiros gostam disto: